Caros Leitores, antes de tudo desejo fazer aqui um pouco a minha apresentação: nasci em Armação de Pêra no ano de 1958, ambos os meus progenitores são oriundos de famílias que já habitavam esta região, pelo menos, desde o século dezanove. Sempre vivi no concelho de Silves aqui tendo frequentado a escola secundária.
Como o título sugere, parece que vos vou contar uma fábula à moda dos irmãos Grimm, só que de fábula não se trata e é em si a tentativa de interligar ou fazer a analogia entre vários temas bem reais que por si só nada parecem ter em comum.
Devo dizer que me reconheço como um amante da natureza desde muito jovem e carrego a sensibilidade a isso inerente.
No passado dia 22 de Maio desloquei-me à inauguração, entre as barragens do Arade e do Funcho, do Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico, inaugurado com a presença de várias entidades, entre elas, responsáveis pela conservação da natureza e da biodiversidade, os mais altos signatários da empresa Águas do Algarve, o Sr. Ministro do Ambiente e a nossa Presidente da Câmara. Quero deixar aqui a minha opinião, e de outras pessoas, pois chocou-me ver o tipo de instalações levadas à prática e que mais fazem jus a verdadeiras prisões ou campos de concentração do que a locais modernos onde se procura reproduzir em cativeiro animais sensíveis e em perigo de extinção conjugando em tudo quanto possível o habitat ao ecossistema onde o animal será futuramente reintroduzido. Neste caso foram feitos cortes nalguns serros para aplanar o terreno deixando a zona sem arborização, transformando-a numa espécie de campo de futebol cercado, dividido em várias jaulas sem qualquer tipo de abrigo natural. Tudo isto, em contrapartida, pela perda do correspondente habitat causada pela futura barragem de Odelouca. Dever-se-ia também fazer viveiros das mais variadas árvores, plantas e as muito raras amêijoas de água doce que ainda povoam a ribeira de Odelouca e evitar que o concelho ao ganhar mais uma reserva de água perca para sempre estes bivalves como sucedeu com a barragem do Funcho. Não esquecer também o desaparecimento de uma das maiores belezas naturais do concelho, o vale com todo o seu património paisagístico e biológico entre a Sapeira e a foz do Carvalho.
No seu discurso, a Senhora Presidente enalteceu a obra e nisso temos que concordar pois decerto nela nem tudo será negativo e nós esperamos que os “gatos” lá consigam procriar. Tenho, contudo, dúvidas quanto ao que foi dito (publicidade política), de que estas obras sirvam para desenvolver o interior (serra) trazendo a tão esperada mais valia económica às populações aí residentes. Quem vai se deslocar a essas paragens para ver linces? De onde?
Esta afirmação faz-me lembrar uma outra de há doze anos em que foi dito que tudo seria feito para que os jovens do concelho nele se pudessem fixar. Ora todos nós sabemos que a principal indústria do Algarve é, sem dúvida, o turismo de sol e praia. Como tal, a fixação de populações depende do trabalho, aliás consagrado na nossa constituição. Significa isto que só com uma poderosa indústria turística, sensatamente estruturada e altruisticamente pensada, no melhor local possível, em A. de Pêra teria sido possível inverter o sentido das coisas. Refiro, o até então desleixo e negligência dos vários executivos (PS e CDU), até à chegada do actual governo autárquico (PSD), no qual, muitas pessoas sensatas depositaram confiança, sentindo-se agora defraudadas e que atingiu o seu pico de impopularidade com a famigerada barraca (apoio de praia), situada na praia dos pescadores. Nunca, antes deste executivo, tinha A. de Pêra conhecido um “Boom” de construção de prédios de apartamentos tão acelerado e frenético como destrutivo e lesivo dos interesses dos Armacenenses assim como dos cidadãos de todo o concelho. Nós interrogamo-nos de duas formas! Porque nunca são prometidos blocos de apartamentos em campanha eleitoral? E porque é prometida prosperidade económica se ela tem decrescido vertiginosamente?
Como poderemos tolerar um executivo que não faz aquilo que promete e faz aquilo que não promete. Depois dizem-se ser amigos de Armação e apregoam grandes obras: escolas, pavilhões, calçadões etc. De que nos serve isso tudo, essa cosmética toda? Os nossos filhos não vão poder morar aqui pois a nossa terra foi selvaticamente privatizada a muitos milhares de Portugueses que a usam a seu belo prazer vindo-nos invadir sempre que têm um tempinho ou chegada a altura de férias, usando a nossa fantástica praia que poderia ser a fonte de riqueza e emprego para muitos milhares de habitantes do concelho.
A Senhora Presidente confidenciou-nos que o futuro dos jovens seria na restauração! Serão 20 ou 30 restaurantes, ao certo não sei. No festival da caldeirada são uns 17 inscritos, passará por aqui o desenvolvimento económico do concelho? Com tantos apartamentos há muito IMI (Imposto Municipal de Imóveis) mas não há trabalho pois cada vez mais temos um maior número de visitantes com menos “posses” que utilizam as suas cozinhas onde é muito mais barato, por mais a crise que atravessamos.
Desengane-se quem pensar valorizar os imóveis em A. de Pêra, cada vez vão valer menos e, subsequentemente, o património dos Armacenenses. Há mais de uma década que não temos um hotel e esse veio depois de um outro construído antes da democracia. Que achais disto caros cidadãos, será com este nível de inteligência que estaremos na senda do progresso económico ou afundámo-nos irremediavelmente? E quem irá ver os linces? De certeza não será o pseudo turismo de A. de Pêra pois eles encontram-se perto de uma das mais belas costas marítimas do mundo. Há décadas que estes turistas vêem publicidade nos barcos (grutas) e não sentem a mínima curiosidade.
Para terminar, vamos ali aos “Nuestros Hermanos”, mais precisamente Benidorm, que tem uma praia bem inferior à nossa e existem cerca de 140 hotéis, qualquer deles maior que o nossos maior prédio do concelho de Silves. Quantos trabalhadores albergará?
Já agora vivam Albufeira e Lagoa que são a fonte do meu rendimento e de muitos outros…