O “25 de Abril de 1974” apanhou-me, ainda criança, frequentando o ciclo preparatório, em Silves.
“Hoje não há aulas! Houve uma Revolução em Portugal!” Foi o que nos disseram quando chegámos à escola, para frequentar mais um dia de aulas.
Passadas poucas horas lá estava eu, lá estávamos, desfilando pelas ruas da cidade de Silves, até à Câmara, clamando os slogans alusivos.
Como pode uma criança envolver-se assim numa manifestação? Tem que ser algo muito forte. É uma REVOLUÇÃO!
Tinha sido devolvido à População, ao Povo, um dos muitos direitos que lhe estavam sonegados, pela longa ditadura fascista que amordaçou Portugal durante 48 anos.
Seguiram-se meses de grandes lutas e agitação social.
É bom recordar aqui e agora, aos mais jovens, que o fascismo existiu em Portugal. Materializou-se na sonegação ao Povo de direitos elementares, como a liberdade de expressão e manifestação. Prendeu e torturou os que ousaram desobedecer e clamar por estes e outros direitos.
Revestiu-se de vários outros aspectos de natureza económica, social e cultural, estruturados e colocados em prática na organização da sociedade. Sempre extorquindo direitos elementares, cavando e semeando desigualdades.
A natureza vil deste regime que subjugou Portugal foi ao ponto de manter uma guerra colonial onde a juventude Portuguesa passava, em risco de vida e de traumas, alguns dos melhores anos da sua vida.
Pela natureza deste regime não podemos deixar de expressar, aqui e agora, o nosso mais veemente repúdio e o protesto contra todos aqueles que o têm querido branquear, menorizando, assim, a sua natureza castradora e opressiva.
Abril devolveu-nos a liberdade e a esperança num futuro melhor, colocando o destino nas nossas mãos.
Passado que foi o período de grandes lutas e agitação social que se seguiu à Revolução, durante alguns meses, Portugal entrou no caminho da chamada Democracia Representativa que nos conduziu até hoje.
Nesse percurso aprendemos que continua sendo necessária a luta e a defesa de direitos, mas agora é uma luta de outra natureza e com mais respeito pelos direitos, entretanto adquiridos.
A liberdade devolvida por Abril tendo-nos restituído direitos e trazido muitas melhorias, na nossa qualidade de vida, continua a ser absolutamente fundamental para a continuidade do nosso caminho enquanto País, para que consigamos uma sociedade mais justa, igualitária e equilibrada, já que continuamos a conviver, e até se viram agravadas nos últimos anos, chocantes desigualdades ao nível do nosso desenvolvimento, quer do território quer do tecido social.
São as discrepâncias de desenvolvimento entre o litoral e o interior, é o aumento do fosso entre os que mais e menos têm, resultante duma desequilibrada distribuição dos rendimentos.
Só com a superação destas lacunas, particularmente desta última (distribuição do rendimento), poderemos construir uma sociedade mais justa, onde a igualdade de oportunidades deixe de ser uma miragem e um chavão e se materialize na realidade.
O chamando Poder Local, tal como o conhecemos e somos, os que estamos aqui, os seus legítimos representantes, neste concelho, foi uma das conquistas de Abril.
Cabe-lhe também a ele, a nós, pela sua proximidade aos cidadãos, contribuir para o desenvolvimento do País. Não só ao nível da satisfação das necessidades mais básicas, como o fornecimento de água, saneamento ou electricidade mas também e sobretudo, resolvidas as primeiras, deve contribuir para continuar a ajudar a Cumprir Abril.
As Câmaras Municipais devem proporcionar aos cidadãos, particularmente aos mais desfavorecidos, as condições que permitam a materialização da Igualdade de Oportunidades que levem à formação de homens e mulheres cultos e autónomos, cidadãos conscientes dos seus direitos, deveres e responsabilidades.
São estes os cidadãos, somos nós todos, que temos a enorme responsabilidade de “Cumprir Abril”, de Desenvolver o Concelho, de Desenvolver o País.
As nossas últimas palavras vão para aqueles Silvenses que sofreram na carne a natureza do regime fascista tendo sido presos e torturados.
Deixaram-nos o seu exemplo, pela sua insubmissão e luta que vale a pena ousar, resistir, lutar. Só a luta vence o abuso e as desigualdades.
Viva o 25 de Abril! Viva a Democracia Portuguesa.