Armação… Não será em vão!
Lembro-me de andar de mão dada com a minha mãe pelas ruas de Armação. Próximo do fim do ano escolar e já o Estio trazia o cheiro da maresia pela aragem das mareagens suaves do princípio de Junho. Ao passarmos pela marginal vislumbrei o mar, a praia sem qualquer perturbação humana. Logo me assolaram as memórias de anos passados e senti um súbito gosto por ir a esse espaço, o qual, apesar de viver tão perto, poucas vezes pisava. Enchi-me de coragem e perguntei à minha mãe…” Mãe vamos à praia? Quando vamos à praia? Já se pode ir à praia?” A estas questões a minha mãe respondeu com …” Não, não sabes que a escola ainda não acabou e o Verão não começou? Quando as férias começarem iremos à praia.” Sem compreender o porquê de ainda não ser tempo de praia, resignei-me e, com a minha mãe, continuei o nosso caminho de mão dada, sonhando com o fim das aulas na primária e o primeiro dia em que pudesse ir à praia nesse ano.
As memórias que carrego desses tempos geram em mim um turbilhão de pensamentos carregados de uma saudade irreal ou melhor, parece que tudo não passou de um sonho. Quando recordo as casinhas brancas ou coloridas, as mulheres com longos pincéis adicionando, cada ano, mais uma camada às muitas pinceladas de outros anos… As paredes onde se podia ver o relevo do desgasto do tempo... Na rua Dr. Manuel de Arriaga onde nasci, da nossa casa tinha-se a visão de toda a lagoa da ribeira de Alcantarilha, desde Pêra à sua foz, e grande parte da praia dos pescadores. Por isto, e porque a ribeira ficava, e ainda fica, a escassos metros da minha habitação, nela passava muito do meu tempo, pescando enguias, indo atrás dos passarinhos, de que hoje não me orgulho, ou exercendo qualquer outra actividade pois desde miúdo sempre soube ser um amante da natureza e nela me sinto no meu melhor. Nesses tempos havia muitas aves e muitos dos peixes de mar podiam-se pescar na lagoa. Lembro-me de no Verão mergulhar na zona junto ao mar com máscara e a visibilidade ser total podendo observar muitos peixes. Hoje é como se não tivesse passado de um sonho, ao longo dos anos fui observando como a minha terra estava a mudar, ao sentir empatia pela natureza perguntava-me qual a razão de estarem a construir prédios tão feios e de forma tão desordenada. Tal justificaria o abate das amendoeiras, que davam frutos tão saborosos e flores tão maravilhosas, efectuado, sem nenhuma piedade, por monstros motorizados como se fossem seres destituídos de valor, alma ou poder? Hoje tudo é diferente. Infelizes dos que nunca irão ter a oportunidade do que eu sonhei… já que dum sonho se parece ter tratado!
Do sonho da infância e adolescência acordei em sobressalto! Que mundo é este e porque não poderia ter continuado a sonhar? Porque a praia não é mais virgem no Verão? Qual a razão desta invasão? Porque não há mais amendoeiras? Qual o porquê do rio ser uma cloaca e os peixes estarem todos mortos? Só há prédios de apartamentos… porquê? Qual será a razão dos Armacenenses terem este destino?
No Verão têm que ser estranhos na sua própria terra, espoliados de quase todos os direitos no seu próprio espaço, e porquê? A senhora Presidente disse-me que ninguém quer construir hotéis na nossa terra, será que os empresários hoteleiros preferem o alto das arribas e os lugares com praias minúsculas à praia de Armação? Ou será que consideram a nossa terra destituída de carácter e, por isso, incompatível com o tipo de turismo que estão interessados em promover? Seja como for a realidade é que somos uma terra queimada em que já nada se pode salvar. Então e o futuro dos nossos jovens? Esses inocentes que têm que mendigar trabalho nos concelhos vizinhos tendo que competir com os seus habitantes numa fase económica desfavorável ou tentar emigrar? Mas para onde? Os anos dourados do crescimento económico na Europa Central e no Norte são passados. Podíamos ser uma terra fantástica tendo uma das melhores praias do mundo, mas o que Deus de bom nos deu, o Demónio nos tirou! Isto é a verdade nua e crua. Os senhores construtores com o conluio da autarquia fazem bons negócios e de forma indirecta debitam nos seus imóveis o preço da nossa praia, isto é que é ganhar dinheiro! Dá para todos menos para quem cá mora. Nós e a vida selvagem (animais e plantas) que compartilham nosso espaço, é que acarretamos com os custos colaterais deste crescimento insustentável e perverso, na medida em que as mais valias realizadas são deslocalizadas para Silves, que nos decidiu colonizar, para os bolsos dos promotores (especuladores imobiliários)que o único sentimento nutrido pela nossa terra é o do lucro ganancioso, para os muitos proprietários de apartamentos dispersos na sua esmagadora maioria pelos mais variados recantos do país e estrangeiro, realizando muito comodamente os seus aluguerzinhos, "emprestando"a "amigos" familiares e outros, muitas vezes através de contactos realizados pela Net ou pelos jornais e fazendo com isto negócios não declarados utilizando estes lucros conseguidos na nossa bela praia para enriquecer as economias nos seus locais de origem. Não será isto muito sério? Não se poderá mesmo apelidar de roubo o que se passa na nossa terra? E quem nos protege? Onde estão os nossos governantes "protectores,"que à altura de querer ser eleitos nos fazem "cançõezinhas de bandido", prometendo e apregoando aquilo que nós conhecemos de cor e salteado? Ficaram por fazer as infra-estruturas que seriam minimamente necessárias para fazer face a um acréscimo populacional que aumenta em vinte vezes nos meses de Verão, tendo como consequência a “sobre produção” de detritos humanos que são, pelos governantes por nós eleitos, de uma maneira inqualificável egoísta e perversa, canalizados para o nosso rio sendo esse o motivo das consecutivas catástrofes ambientais tanto na ribeira de Alcantarilha como na boca da lagoa (Lagoa dos Salgados). Tudo isto com o “olhar para o lado” das autoridades regionais do Ministério do Ambiente. A Câmara Municipal de Silves é possuidora de um grande ego, mas claro, as pedras, cal areia etc. não podem ter ego....Como se tudo isto não chegasse, agora querem tirar-nos o último monumento de valor que nos resta, a nossa linda praia no seu imenso palco de àgua verde esmeralda, o mar. De que vale a praia, que viu nascer um dia esta aldeia de pescadores, perante o valor que trará à nossa comunidade a construção de um “mamarracho” com seis metros de altura e duzentos metros de área? Na minha opinião só nos vai tirar, a todos, a vontade de viver nesta terra. Por tudo o que foi dito peço a todos os Armacenenses e a outros que queiram fazer sua a nossa causa, que nos mantenhamos unidos e vigilantes até que o inimigo seja derrotado, pois este ultraje não pode passar.
Agora que lhe tomámos o gosto mantenhamos a nossa luta em nome dos nossos avós que construíram as bases da nossa terra e também em nome dos nossos filhos, netos e gerações vindouras.
Obrigado, pela Vossa luta!
Um cidadão preocupado!...